No papelzinho do chocolate eu escrevi a data. Vinte e cinco de setembro. Vez em nunca eu espio, de leve, a caixa de passados distantes e recentes. Listas de livros que já li, fotos, cartas, meus nomes preferidos, textos da minha vida inteira.
O primeiro é de 2001, algo sobre a primavera. Ao reler, tive vergonha de mim, sabe como? Você se acha tão melhor no presente que se enxerga pequeno, incapaz, ingênuo e bobo quando se olha no passado.
Mas, naquela época, eu fiquei foi muito orgulhosa de mim e da minha capacidade. Como se o meu texto fosse o melhor de todos os textos. Como se nada no mundo tivesse sido escrito até então.
E não tinha. Porque eu não conhecia.
Depois dessa 'Primavera, como és bela', a menina de doze anos resolveu ser escritora, pff! Ela passaria quantas tardes fossem necessárias na biblioteca pública, conheceria tantos mundos quantos precisasse, se apaixonaria por homens e mulheres de diversos tempos e no seu tempo, que não sabia qual era, escreveria também.
Escreveria sonhando que as pessoas se apaixonassem por ela, chorassem com ela, rissem com ela, amassem com ela. Escreveria para que seus leitores, não importa se muitos ou poucos, sentissem por ela o mesmo que ela sentia pelos escritores preferidos. Escreveria com a pretensão de fazer nascer o amor pela leitura em alguém que odiasse os livros.
Acontece que eu cresci e deixei de lado muitas pretensões e alguns sonhos. Entre eles, o de ser escritora. Só não me dei conta que, não importa quanto tempo passe, fica alguma coisa da infância na nossa vida. Por isso, guardo pedacinhos de frases que podem virar um parágrafo. Reescrevo parágrafos pensando em transformá-los numa história. E reconto as histórias pro meu coração, antes de dormir.
Nada vai virar livro, saiba-se. Mas guardo assim mesmo. No futuro, quando eu estiver rodeada de netos, conto pra eles a minha história, minhas frases, minhas fotos. Conto pra eles que o papel do chocolate era de um dia especial que rendeu outros textos. Aí eu saberei quem fui e afirmar quem sou. E direi a eles que guardem suas lembranças também. Afinal, o que somos nós, senão a memória de quem somos?
Pra ser justa: o tal da Primavera foi feito com minha amiga Dayana. A gente leu pra sala, a tia gostou e ele foi parar no muralzinho da escola.