segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Adivinha

Quase nunca fala de si e quando fala é num breve momento de distração e, logo que se dá conta, pára, num manejar de cabeça que lhe é peculiar. Dificilmente sorri quando não tem que atuar. Quando atua, encanta; quando não atua, encanta mais. Perguntei a alguém o que achava e me respondeu legal.
Legal não. Legal não traduz muita coisa. Fascinante lhe cai bem melhor. Tão bem quanto as roupas que usa e as graças que faz. Tenta se esconder, mas não tem jeito. Tenta se camuflar, mas não consegue. E quanto mais some, mais procuram.
Ninguém fica inerte. Causa, no mínimo, o incômodo de ser tão inatingível.
Se esconde não, bonita. Mas não se mostre muito, também.
Que é pra gente ter aquele frio na barriga toda vez que se esbarra em você nos corredores.


'E ser isso aqui. Isso é aquilo. Então vem o final.
Resistindo às mudanças todas. Se afirmando o tempo inteiro e
repetindo: junto, junto, junto'.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Coronel Fabriciano

Enquanto você toma banho, entra no meu quarto um cheiro de gengibre e limão que o vento e o calor trazem. Aqui é sempre quente assim. O sol faz estalar o asfalto, queimar as peles mais sensíveis e vender bastante picolé. Aqui é sempre úmido assim. Gotinhas se formam na pele e é desconfortável. Por isso o sabonete de gengibre e limão; frescor.
Mas olha, eu gosto daqui assim mesmo. Aqui me sinto mais perto de Deus e mais perto de mim. Aqui tem a amizade de infância, meu pai, minha mãe, meu irmão e a broa de fubá com erva doce que a vovó faz.
Aqui eu lembro quem eu sou e o que quero da vida.
E gosto quando você vem comigo, que aí eu sou inteira. Então sou mais forte. E a nenhum problema falta solução.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

É hoje

Ela tem um caderno de capa amarela, onde as amigas escreveram palavras de sucesso e saudade. Eu sempre quis ter um caderno assim e, nesse final de semana, relendo escondida, como na infância, vi lá, a minha letra infantil e torta,

'mamãe,(...) e mesmo quando eu me separar de você, quero sempre seguir o bom exemplo que você a cada dia vem me dando' - Beijos da Indh, 06/11/2001
Com 12 anos eu já sabia que iríamos nos separar e já tinha certeza que queria repetir tantas coisas bonitas que aprendi com ela.

Mas mãe, tem coisa que não vai dar pra fazer. Não vou usar salto, nem do dia do meu casamento, jamais colocarei no armário uma roupa azul royal, porque você sabe, eu detesto azul royal, mas vai dar pra continuar amando maquiagem. Hoje eu sei usar delineador líquido com precisão cirúrgica, só não herdei as suas habilidades artísticas, porque minha coordenação motora continua péssima. Não aprendi a cozinhar, embora você tivesse tentado me ensinar tantas vezes, mas tenho aprendido a perdoar e a não guardar rancor das pessoas e da vida graças à sua humildade e ao seu caráter. Eu me orgulho de você ser quem é, e de ter chegado aonde chegou e de ser tão linda assim, que quero ser você quando eu crescer, mãe.
Vou ser você sim, de AllStar e sem batom vermelho.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Delírio Febril

Ouvir com calma o que o cidadão tem a dizer, pesquisar a vida dele, os gostos dele, as artes dele, os tempos dele. Observar os sorrisos as lágrimas as mãos, porque você sabe, as mãos dizem muito, sempre. As mãos denunciam o nervosismo, a paixão, a fúria, tristeza. E diferenciar tons de voz, a expressão dos olhos. Notar a cor da caneca em que bebe café e se as unhas estão amareladas. Porque você sabe, quem tem as unhas amareladas normalmente fuma. E, se fuma, desde quando? Por que? Como começou? Então voltar à infância, aos pais, aos amores...
Entende? Não ter a pressa hemorrágica de apurações ou urgência em saber de mortos dos quais amanhã ninguém se lembrará, a não ser que alguém se disponha a contar a história deles. Tá entendendo onde quero chegar? Lotar os minutos com números que ninguém vai decorar não faz um mundo melhor, embora os números sejam necessários. Mas acho tão tão tão enfadonho...que não quero fazer do efêmero o meu ganha pão. O que eu fizer tem que, antes de tudo, transformar para melhor a minha própria vida. Tem que me deixar emocionada ao contar a história de alguém. O trabalho tem que me dar prazer. Tem que ser uma escolha, não um Senhor de Engenho. Tem que me fazer dar valor à vida e valorizar a vida das outras pessoas.
Como quando perguntei a uma mulher sobre o aumento das passagens de ônibus e ela respondeu:

-Olha,eu acho um absurdo, porque de vinte em vinte centavos eu posso comprar até leite.


E o leite azedando em tantas nossas geladeiras.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Choro

É um frio na barriga que parece antecipar as tensões, sabe como? Como se o mundo estivesse sempre prestes a acabar e dependesse de mim a sustentação dele. Se a cada segundo eu tivesse que prender a respiração pra nada desmoronar. Ou ficar imóvel e esperar voltar para dentro as lágrimas que querem escorrer. E elas voltam. Lá pro coração pra salgar o que já está aflito e passado do ponto, até. Depois as pernas ficam bambas, as palavras se confundem e misturo a tragédia de cada minuto aos meus próprios problemas e a saudade insuportável que sinto de quem é meu. Quero todos aqui. Os quero tanto que, embora muito feliz, sinto-me tão triste por causa da distância. Por não poder partilhar, chorar e rir, e dizer que os amo de todo coração. E finjo alegria qualquer para não afligi-los com a minha saudade. É tão grande a falta que choro sozinha, pela primeira vez em dois anos, ao lembrar de quem deixei pra trás. A água de choro, que tinha voltado pra dentro, jorrou com tanta intensidade que não me reconheço mais. Eu, que era a mais forte, a menos emotiva, a mais grossa, carrancuda e menos efusiva. Logo eu, que sempre odiei chorar. Que sempre gostei de saudade. Logo eu.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Em 2009 eu...

Disse 'eu te amo' pro meu namorado depois de cinco meses de namoro. Descobri que gosto de dormir cedo e acordar cedo e de cabelos cacheados. Que gente bonita é bonita mesmo sem maquiagem, que os estudos são quase a minha razão de existir, mas que nunca madrugo estudando e que nunca deixo de ir ao cinema pra estudar. Vi que pode haver equilíbrio em tudo na vida mas que, quanto mais manteiga, melhor. A minha admiração por professores cresceu tanto que fez nascer em mim a vontade de ser professora também. Afirmei para a mais aguda das minhas carências que o fato de uma pessoa não ligar todos os dias e não responder aos emails sempre, não quer dizer que ela não goste de mim e que não posso exigir nada, se eu mesma detesto telefone e demoro a responder emails. Assumi a importância de um telefone e de como ele é útil quando eu preciso cozinhar feijão e não sei usar a panela de pressão. Descobri que odeio rimas, e se gosto de alguém, eu gosto. Mesmo se me magoar, mesmo se me ignorar, mesmo se não sentir o mesmo que sinto. Gosto e pronto. Em 2009 caiu de vez a ideia 'se um amor acaba é porque ele nunca existiu', aumentou o respeito às religiões. Do mesmo jeito que aumentou a convicção em relação à minha fé. Da mesma forma que aumentou o meu amor a Deus e a saudade da igreja e dos irmãos de Coronel Fabriciano. Nesse ano que já já dará adeus, deixei o café tomar conta da minha vida, e Marcelo Camelo e Franz Kafka tomarem conta do meu coração. Espero que 2010 tome conta dos meus dias, mostrando paixões novas e de tirar o fôlego, sem apagar, claro, aquelas que já se tornaram amor.
"Perceber aquilo que se tem de bom no viver é um dom,
daqui não eu vivo a vida na ilusão entre o chão e os
ares vou sonhando em outros ares, vou fingindo ser o que
eu já sou fingindo mesmo sem me libertar eu vou
É Deus parece que vai ser nós dois até o final eu vou ver,
o jogo se realizar de um lugar seguro,de que vale ser aqui?
onde a vida é de sonhar liberdade"
Liberdade - Marcelo Camelo

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Carta

Tenho a vontade de escrever uma carta, me colocar no envelope e ir, dentro dele, até a sua porta, te abraçar e dizer que está tudo bem. Te esperaria ler cada letrinha e depois viria outro abraço; o de despedida. É que não posso ficar muito tempo. É que o tempo passou depressa e agora os ventos são outros e preciso ajeitar as velas, pro barco não virar. Tenho que dar as costas, mostrar-me forte, deixar um pouquinho de força e de sotaque mineiro pra que você se lembre das suas raízes, se orgulhe de quem é e não se perca por aí. Ninguém entende. E não tem que entender, é por isso que me poupo de explicar. Mas há amor. Há amor, sim. Que mudou de cor, forma e cheiro com os anos, mas há.
Daquele que quer ceias de natal, abraços de ano novo e presentes no aniversário. Daquele que quer risos incontidos de coisa nenhuma e toda a compreensão que a convivência construiu em nós. Daquele que perdoa as fofocas e pede perdão pelas maledicências e afins. Daquele que não precisa ser regado; vive apesar da seca.
Daquele que vive na secura, não brota mais, mas vive em mim. Quero em você a felicidade que sinto. E que você merece. Ainda que nunca mais haja ceias, anos novos, aniversários. Ainda que chegue 2013, eu abra a carta-secreta e veja que nada do que está lá, de fato aconteceu.
Te abraço com carinho.
Indhiara.