terça-feira, 17 de novembro de 2009

O que eu não escrevi

Dia desses a gente senta, você me faz ouvir, pela milésima vez, Black Magic Woman sem se dar conta de que conheci e passei a apreciar Santana por sua causa. Aí, enquanto jogamos Guittar Hero, te explico que o primeiro amor da minha vida foi justamente quando eu tinha a sua idade. E, parecendo desinteressado, você pergunta se meu primeiro beijo foi do meu primeiro amor e direi que não.

Direi também que, aos 14 anos, eu era muito mais careta que sou hoje. Muito mais medrosa, muito mais adulta, e muito, mas muito mais chata. Conto que, na sua idade eu estava começando a trocar a biblioteca pública pelas amigas, cinema, e coisas da adolescência que eu queria pular. Sim, queria. Cismava que seria muito melhor sair dos 13 pros 18 e não ter que dar satisfação a mais ninguém. Sorte era que papai sabia me colocar no meu lugar, do contrário, teria feito minhas trouxinhas e vazado de casa, pra quebrar a cara trocentas vezes e voltar com os cacos pra ele colar depois. É por isso que deixo de lado os conselhos que nunca fazem sentido, a não ser para aqueles que os proferem, e falo uma coisa só: aproveita sua idade. Com tudo o que papai e mamãe te ensinam e com cada dia vivido com a inteligência e esperteza que você tem. Me orgulho tanto de você ter livrado a família de um desastre matemático! Te imagino tanto um engenheiro bem sucedido, mas terei o mesmo orgulho se você escolher uma profissão totalmente diferente, afinal eu troquei a medicina pelo jornalismo.

Dia desses eu te levo pra um lugar proibido para menores, a gente come mil tipos de batatas e joga Rummikub. Eu sei que vou perder, como sempre. Mas o melhor de tudo é rir das piadas que você faz. Porque você é a pessoa que tira, mais facilmente, um sorriso de mim. E eu vou te apertar na frente dos seus amigos, te chamar de xuxu e dizer que te amo. Porque irmãs mais velhas não existem para serem sempre legais. Elas precisam dar motivo de queixas de vez em quando.

Enquanto esse dia não chega, te apresento uma paixão. Você pode continuar amando os números, mas deixe que as palavras te façam feliz também. Te deixo o primeiro amor da minha vida, para que ele seja um dos seus amores, não importa quantas vezes você se apaixone.

O que eu escrevi:

Fera, se você ler uma crônica por dia, terá lido 35 em um mês e cinco dias.
Aí você vai poder dizer pra sua professora de português, que evoluiu como ser humano.
Pode ler durante as aulas de história também. Era o que eu fazia. Depois é só estudar a apostila em casa mesmo, um dia antes da prova (que sua mãe não leia isso).
Mas não deixe de ler. Vai dar boas risadas!
Feliz 14 anos, e aproveita que o vestibular tá longe (graças ao bom Deus) e que Metodologia de Pesquisa Científica não existe na sua vida.


sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Cidade

Por Curitiba, Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo.
Todas as tribos indígenas e a independência. Mas o melhor lugar está perto lá de onde tem a frase "minha vida é esta: subir Bahia e descer Floresta". Eu sei, cansa. Só que nunca reclamei. Jamais me viu queixar de dor nos pés por caminhar nesses estados todos em uma tarde só. Muito menos se, durante a caminhada, houver uma parada para sorvetes em algum presidente ou oficial militar. Não me importo, amanhã é sábado, não tem aula nem trabalho. Não ligo pra dor física, se meu coração estiver feliz. Sim, é brega e clichê. Mas lembro de escutar uma vez que o amor é lindo, maravilhoso e brega, baranguíssimo. Poderiam colocar na frase que o amor gosta de andar, também. Que, se ele for a pé, não tiver carteira de habilitação e só um cartão BH Bus - ou nem isso - ele é satisfeito por caminhar junto, em cada uma das ruas e praças da capital.
Te entendo. Entendo sim. Mas me canso também e não acho ruim.
Fica esperto, que cansaço não é privilégio seu.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Para Ana Paula Medeiros

Flor, te arruma que eu tô passando aí para te livrar de si mesma. Veste teu vestido leve, calça sapatos baixos e deixa os cabelos soltos, pro vento moldar os fios como lhe convier. Flor, não tenha medo de deixar o casaco no armário; lá não tem frio. Tem primavera. Tem sol gostoso que não fere a sua pele branca, mas que não deixa de te aquecer. Pega a maior bolsa e coloca dentro dela os discos que nos fazem morrer de rir da vida, as revistas que nos fazem querer ter todo dinheiro do mundo, os chocolates e nossos litros de água. Que, pra onde vamos, pouca coisas serão necessárias. Onde vamos, você vai encontrar o amor, eu sei.
Ser feliz, chorar bem menos.
Te apronta, flor, que eu não sei pra onde te levo, mas juro que é pra longe das suas dores.

domingo, 1 de novembro de 2009

Slow Motion

Na velocidade do interior, na calma da casa dos meus pais, lambida fiel do meu cachorro. E, em câmera lenta, começar tudo outra vez porque eu não sei tantas coisas. Da sua comida preferida ou que tipo de música você gosta de ouvir. Seu maior sonho, medo, nojo. Não sei o que você mais gosta em mim ou do carinho que prefere. E você não faz idéia de que, atrás da minha cara de nerd, há uma menina que ama samba, que adoraria ter aprendido tocar pandeiro, se tivesse tino pra coisa, e que ainda quer viajar o mundo com uma mochila nas costas, assim, sem destino. Achei que todas essas conversas banais, porém necessárias, viriam com o tempo, mas não vieram. Nós deixamos a cidade grande impor seu ritmo sobre nosso amor, e agora eu tenho medo de que ele cresça na mesma velocidade e morra rápido também.
Você sabe do meu passado, dos meus maiores amores e decepções. Eu sei da menina insuportavelmente bonita com quem você se relacionou e de outras aventuras por aí.
Só que o passado não me interessa mais. Quero respirar ao som da música que você quiser me mostrar e te conhecer outra vez. E de novo, de novo, de novo.
Para eu nunca achar que digo eu te amo pra um estranho.
Pra eu não ter dúvidas a respeito de quem você é e de onde deixei meu coração.
Cuida bem dele, e sempre me pergunte de como eu gosto do café.
Mudo com mais frequência do que gostaria.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

vazio

falta-me o tempero e o gosto. o tranco e a paixão insana
a dor profunda ou felicidade plena
a inspiração

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Vidinha

Apartamento no décimo andar do centro da cidade. Janelas antigas, cortina colorida, setembro, manhã de sábado, raios de sol entrando preguiçosos pela fresta da janela e se misturando ao aroma do café forte que eu esqueci de me levantar para fazer. É aí que me enrolo nos lençóis brancos, abro os olhos com dificuldade, sinto o estômago roncar com uma ferocidade que me fez lembrar que na noite de ontem cheguei tão cansada que não dei conta de comer mais que meia banana. Sinto unhas afiadas no meu calcanhar, um miado manhoso e aí vem correndo o poodle encardido e derruba o felino no chão e os dois começam a brincar no tapete que chegou da lavanderia semana passada. Entre a fome, o sono, os animais e os raios de sol, chega uma bandeja com frutas, pães, bolo de laranja, o café e açúcar para encherem o meu buraco estomacal.
"Bom dia, meu bem"
"hummm, bom dia... cadê o adoçante?"
"Hoje é sábado"
"Isso significa que posso engordar?"
"Isso significa que o dia pode ser mais doce que o resto da semana"
Então você traz um jornal que eu não quero ler porque "hoje é sabado", e separa a programação do cinema. Abro um largo sorriso porque pula na cama, indignado, um ser pequeno, fofo, bochechas rosadas, cabelo bagunçado e reclama porque
"o Ted comeu a perna da minha boneca".
Faço-lhe cócegas e uma trança em cada lado da cabeça enquanto ela pega um pedaço de bolo. Você resgata a perna da boca do cãozinho e diz que a boneca era velha mesmo, não tem problema. E, sem hesitar, retruca a menininha com os olhos do pai:
"Mas papai, quando a mamãe ficar velha você vai deixar de gostar dela"?
Nessa hora, você me lança o olhar que dispensa palavras. Algo que eu entendi como sendo "amor apesar do tempo".
E, enquanto você repousa na mesa a xícara escura com o café forte e mastiga o pão com a calma de quem não tem mais nada a fazer, eu imagino essa cena, desejando de todo o coração que as coisas dêem certo.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Memórias

No papelzinho do chocolate eu escrevi a data. Vinte e cinco de setembro. Vez em nunca eu espio, de leve, a caixa de passados distantes e recentes. Listas de livros que já li, fotos, cartas, meus nomes preferidos, textos da minha vida inteira.
O primeiro é de 2001, algo sobre a primavera. Ao reler, tive vergonha de mim, sabe como? Você se acha tão melhor no presente que se enxerga pequeno, incapaz, ingênuo e bobo quando se olha no passado.

Mas, naquela época, eu fiquei foi muito orgulhosa de mim e da minha capacidade. Como se o meu texto fosse o melhor de todos os textos. Como se nada no mundo tivesse sido escrito até então.
E não tinha. Porque eu não conhecia.

Depois dessa 'Primavera, como és bela', a menina de doze anos resolveu ser escritora, pff! Ela passaria quantas tardes fossem necessárias na biblioteca pública, conheceria tantos mundos quantos precisasse, se apaixonaria por homens e mulheres de diversos tempos e no seu tempo, que não sabia qual era, escreveria também.

Escreveria sonhando que as pessoas se apaixonassem por ela, chorassem com ela, rissem com ela, amassem com ela. Escreveria para que seus leitores, não importa se muitos ou poucos, sentissem por ela o mesmo que ela sentia pelos escritores preferidos. Escreveria com a pretensão de fazer nascer o amor pela leitura em alguém que odiasse os livros.

Acontece que eu cresci e deixei de lado muitas pretensões e alguns sonhos. Entre eles, o de ser escritora. Só não me dei conta que, não importa quanto tempo passe, fica alguma coisa da infância na nossa vida. Por isso, guardo pedacinhos de frases que podem virar um parágrafo. Reescrevo parágrafos pensando em transformá-los numa história. E reconto as histórias pro meu coração, antes de dormir.

Nada vai virar livro, saiba-se. Mas guardo assim mesmo. No futuro, quando eu estiver rodeada de netos, conto pra eles a minha história, minhas frases, minhas fotos. Conto pra eles que o papel do chocolate era de um dia especial que rendeu outros textos. Aí eu saberei quem fui e afirmar quem sou. E direi a eles que guardem suas lembranças também. Afinal, o que somos nós, senão a memória de quem somos?


Pra ser justa: o tal da Primavera foi feito com minha amiga Dayana. A gente leu pra sala, a tia gostou e ele foi parar no muralzinho da escola.