terça-feira, 2 de setembro de 2008

Fica?

Lá da esquina avistou o prédio verde velho que teima em não cair. Não desanimou por causa da aparência porque já estava acostumado a coisas feias, então continuou a andar, calmamente, até aproveitar o portão aberto e subir degraus abandonados pelos responsáveis pela limpeza. Bateu na porta sem agressividade e quando eu atendi corei de vergonha e tremi de medo diante daquela figura modesta. Olhou-me, sorriu e perguntou se poderia entrar. Eu disse que não, mas que não era por má vontade e sim porque a casa estava uma bagunça e odiaria recebê-lo naquela circunstância. Sorriu novamente, disse que não se importava e não tive outra reação senão a de abrir mais a porta e deixá-lo entrar.
Todos os cantos da casa estavam sujos e mal arrumados e, dando uma volta completa em torno de si mesmo, avaliou o ambiente com a serenidade de quem contempla uma campina em flor. Voltou-se para mim:
-Como consegue viver assim?
-Eu não consigo...é que sempre que tento arrumar uma coisa bagunço outra e me desespero, aí deixo como está. Mas não consigo e não gosto.
Sem perguntar nada ele pegou a vassoura e começou a dar um jeito naquele ambiente inóspito. Varria com gosto, feliz. Organizava com prazer aquilo que eu tornei baderna. Então, mais pra não perder aquela companhia do que pra ajudar na arrumação, peguei um pano, balde, sabão e me coloquei a esfregar o que um dia fora chão limpo. Enquanto trabalhávamos no que eu achei ser meu, ele explicava que sozinha eu nunca iria conseguir nada mesmo e que eu dependia de sua ajuda, mas só seria ajudada se quisesse. Vi no semblante dele um amor fora do comum por essa minha vida desregrada, vi que se importava comigo e apesar disso não me invadia e jamais o faria porque além de me amar, respeitava-me.
Ensinou sobre o amor que devo dedicar aos outros, sobre a delicadeza na qual minhas palavras devem habitar e sobre o perdão que preciso conceder ainda que não me seja requisitado.
O sol começou a se esconder atrás da serra quando guardamos o último prato limpo e ele me disse que já ia. Educado como é, não insistiria pra ficar. Ir agora? Depois da casa arrumada? Vou sujá-la de novo e quem vai ajudar a colocar ordem? Ele mesmo não disse que eu nunca conseguiria limpar tudo sozinha?. Não queria que ele fosse e faria de tudo, esconderia suas sandálias as chaves e a porta se preciso fosse. Felizmente nada disso se fez necessário e eu pedi, só pedi:
-Vai não, Jesus. Fica e me ensina a ser como você.
E a resposta foi um abraço que parou meu mundo, um abraço que queria dizer "Fico".

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