terça-feira, 29 de julho de 2008

Melhor do Planeta

Fico um ano sem ver um, vejo outros só nas férias ou no único fim de semana que corro pro interior, moro na mesma cidade de alguns e ainda assim custo a vê-los. E no reencontro, a intimidade e companheirismo de quem parece que se viu há cinco minutos me fazem ter a deliciosa sensação de estar em casa. As zuações mais patetas, as risadas mais bestas, as idéias mais palhaças e um tempo enorme pra contar como cada um tá, as mazelas, as vitórias, os amores, os erros, as amenidades e os sonhos. A coisa boa é que o sonho de um é abraçado por todos. A gente sonha junto porque foi a mesma pessoa que nos fez sonhar assim, e determinou, lá bem antes da fundação do mundo que seríamos amigos mais chegados que irmãos. E sabemos também que não importa quanto tempo vai demorar para que dias como ontem se repitam, mas a gente se preocupa não. A gente espera, apesar da vontade de um nunca mais se soltar do outro. Agora cada um retoma sua vida, rotina, cidade e eu volto pra capital com a convicção de que minha casa são meus amigos, aqui ou em qualquer lugar do mundo.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Meu coração.

Tem cheiro de baunilha e musky. Desses cheiros enjoativos que ficam nas entranhas. Que já me foi agradável, por motivos que prefiro não dizer, mas que hoje me causa asco. Coisa pessoal mesmo. Todo sujo, cheio de espinhos, voz irritante, temperamento ruim, intratável. É egoísta, é hipócrita, é vingativo, sofre de auto-piedade e quer a todo custo ser o centro das atenções. É enganoso. Mostra caminhos de morte. É fera indomável, dessas que estraçalham quem se atreve a cruzar seu caminho. É bicho arredio que se esquiva quando não consegue o que quer. Fica feliz com a desgraça alheia. Fica feliz com a própria desgraça, pra ser digno de pena.
É tão desprezível que será preciso uma troca. Ele precisa sair daqui. Ele precisa ser esmagado, destruído ou limpo. E quem vem limpá-lo pegou os espinhos dele e os colocou na própria cabeça. Tem pés e mãos marcados pelos ferimentos que ele causou. Quem vem trocar-lhe a aparência disse que seria assim mesmo. Que ele era nojento mas que agora será diferente. Que todo o ciúme, a possessividade, os erros, as crueldades, e a auto-destruição tinham que estar ali mesmo até a hora dessa troca chegar. E a hora chegou. Só me resta entregar, sem reservas, um coração em frangalhos pra ter um coração limpo, pulsante, forte. Com cheiro fresco de miséricordia que se renova com o nascer do sol. Cheiro que será sempre fresco, pois é certo que o sol nascerá todos os dias até a vinda de quem me deu coração novo.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Peça.

Se me pedires um abraço levas também um beijo e a alma. E meu corpo, e os anéis dos meus cabelos, meus sonhos, meus sorrisos e gargalhadas felizes de estarem contigo.
Se pedires pra sentar ao meu lado, te ofereço minha vida toda, ombro a ombro até as bengalinhas que nossos netos nos darão nas bodas. Se me pedires colo, te dou todo o perfume que sai dele e cada poro que transpira amor e saudade.
Mas tens que pedir. Podes reclamar de mim, do meu jeito formal de texto, da minha maneira informal de prosa, podes dizer o quanto sou irritante e estranha. Mas tens que pedir. Se redimir, se render e abrir mão do orgulho que nos separa junto com os tantos quilômetros. Dessa vez terás que bater na porta, limpar os pés antes de entrar e dizer com toda delicadeza que me quer de volta. Do contrário, estaremos separados pra sempre.

Desiste.

Me olha assim não, moço. Não pedi pra se apaixonar por mim e lamento não ter avisado antes que sou uma encrenca. Aliás, para evitar futuros embaraços, vou adotar o trocadilho (infame) que me inventaram e pendurar uma plaquinha no pescoço com a palavra "indhsponível", pra ver se resolve.
Mas na verdade, moço, tô indisponível não. Tô é esperando quem não vem, sonhando quem não existe, querendo quem não posso, desejando o quase-impossível. Culpa sua não, moço. Culpa minha mesmo. Por via das dúvidas, é melhor não se iludir, que eu gosto é do que não está ao meu alcance.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Sempre assim.

Amigos inspiram.
Amigos inspiram a ser eu mesma e isso faz com que eu seja o melhor de mim.
Amigos se entendem com o olhar, se desentendem com palavras e se reconciliam com o mais confortável abraço.
Amigos motivam. Amigos motivam a corrigir erros, pedir perdão e seguir em frente.
Amigos deixam saudade quando distantes e nos levam à infância quando perto.
Suportam as falhas por causa do amor, sofrem juntos por causa do amor e comemoram vitórias por causa do amor.
Por causa desse amor, há amigos que são mais chegados que irmãos e eu, com amigos que tenho, me vi numa família. Família que mora numa casa construída sobra a Rocha. A Rocha que nos alimenta, que é nossa maior amizade, que é a nossa salvação. E faz com que sejamos sempre assim: amigos.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Fome

Ela apareceu sutilmente como quem não quer nada. Mas ela queria, e muito. Muito para ela, apenas. Pouco ou nada para nós que estávamos ali, sentados, rindo, reclamando do frio, apesar dos agasalhos, reclamando da fome, apesar de termos feito o pedido à garçonete.
"Boa noite, algum de vocês tem um trocado pra me dar, pra eu comer?"
"Não, hoje não, dona", "Eu também não" "Nem eu".
Pensei no que seria realmente a fome. A falta do que comer. O ácido estomacal destruindo as paredes de um estômago que não devia encontrar alimento todos os dias, um estômago que frenquentemente devia receber restos do meu desperdício.
Fome.
E eu tendo condições de sanar o meu apetite em segundos, num simples abrir e fechar de geladeira. E eu sem privação alguma.
"Muito obrigado então, boa noite, tchau..."
Então uma amiga levantou, abriu a bolsa, tirou os trocados e pediu que fizessem um hambúrguer para a mulher faminta. Hambúrguer que entraria na frente dos outros pedidos. Que adiaria a saciedade dos clientes, mas supriria a necessidade da pobre mulher.
Recebeu o pedido, agradeceu e foi a outra mesa pedir outros trocados pra ir embora. De certo morava longe. Mas não conseguiu. Agradeceu outra vez e se foi. Calmamente, tirando milho por milho, pedaço por pedaço, como quem não quer esquecer nunca uma refeição, como quem experimentava um manjar dos deuses.
E eu fiquei. Cada uma de nós ia seguir com a sua vida. Ela indo, eu ficando. Ela deitaria em alguma esquina suja e gelada, depois de ter ingerido um alimento pobre em nutrientes mas rico em solidariedade. Se cobriria com os classificados, sonharia, quem sabe, com um mundo melhor, vida melhor, alimentos melhores, ou apenas alimentos. Alimentos que acalmassem toda a ânsia do seu corpo de continuar existindo. Sobreviver.
Eu?
Eu voltaria para casa, tomaria meu banho quente, deitaria na minha cama confortável, sem preocupações, sem angústia, sem medo, certa de que, no dia seguinte, a mesa do café da manhã estaria à minha espera.

sábado, 5 de julho de 2008

Tudo aqui dentro.

Eu li tudo. Até a última letra. Até o ponto final (e será que ele determinou mesmo algum fim?). Mastiguei cada palavra, senti-lhes o gosto doce. Engoli com prazer cada frase, cada idéia, cada pensamento, cada promessa de um futuro bom. Cada jura de amor eterno.
Eu apalpei até a última folha, senti-lhes a textura, cada papel de um lugar, com uma figura, com um desenho.
Cada carta uma arte.
Cada plano uma esperança.
A esperança de viver com arte todos os planos que fizemos.
O desejo intenso e crescente de ser feliz.
A intensidade do amor, o crescimento da amizade, a agradável companhia e todas essas coisas que queremos pra toda a vida.
Peguei tudo, revivi cada momento. Senti outra vez cada beijo, cada sorriso, cada desaforo, cada encrenca, cada gargalhada.
E no fim, letras, papéis e arte são só lembranças.
Mas guardo aqui, cada uma delas.