Ela apareceu sutilmente como quem não quer nada. Mas ela queria, e muito. Muito para ela, apenas. Pouco ou nada para nós que estávamos ali, sentados, rindo, reclamando do frio, apesar dos agasalhos, reclamando da fome, apesar de termos feito o pedido à garçonete.
"Boa noite, algum de vocês tem um trocado pra me dar, pra eu comer?"
"Não, hoje não, dona", "Eu também não" "Nem eu".
Pensei no que seria realmente a fome. A falta do que comer. O ácido estomacal destruindo as paredes de um estômago que não devia encontrar alimento todos os dias, um estômago que frenquentemente devia receber restos do meu desperdício.
Fome.
E eu tendo condições de sanar o meu apetite em segundos, num simples abrir e fechar de geladeira. E eu sem privação alguma.
"Muito obrigado então, boa noite, tchau..."
Então uma amiga levantou, abriu a bolsa, tirou os trocados e pediu que fizessem um hambúrguer para a mulher faminta. Hambúrguer que entraria na frente dos outros pedidos. Que adiaria a saciedade dos clientes, mas supriria a necessidade da pobre mulher.
Recebeu o pedido, agradeceu e foi a outra mesa pedir outros trocados pra ir embora. De certo morava longe. Mas não conseguiu. Agradeceu outra vez e se foi. Calmamente, tirando milho por milho, pedaço por pedaço, como quem não quer esquecer nunca uma refeição, como quem experimentava um manjar dos deuses.
E eu fiquei. Cada uma de nós ia seguir com a sua vida. Ela indo, eu ficando. Ela deitaria em alguma esquina suja e gelada, depois de ter ingerido um alimento pobre em nutrientes mas rico em solidariedade. Se cobriria com os classificados, sonharia, quem sabe, com um mundo melhor, vida melhor, alimentos melhores, ou apenas alimentos. Alimentos que acalmassem toda a ânsia do seu corpo de continuar existindo. Sobreviver.
Eu?
Eu voltaria para casa, tomaria meu banho quente, deitaria na minha cama confortável, sem preocupações, sem angústia, sem medo, certa de que, no dia seguinte, a mesa do café da manhã estaria à minha espera.