domingo, 21 de setembro de 2008

Difícil.

Seguravam as mãos enquanto o trânsito ia lento. Rush, barulho e caos. Conversavam amenidades que vez ou outra acabavam em um silêncio constrangedor e as mãos continuavam dadas. Ele pedia que ela começasse um assunto qualquer, só pra preencher o vão das mãos tímidas. Ela não conseguia falar, esboçar qualquer reação e não vinha sequer um comentário desses de elevador. Calou-se, só. E silenciosa procurou na paisagem urbana e cinza e fria algo mais leve que o verde dos olhos dele que deixavam escorrer amor, carinho e esperança. Difícil demais fitá-lo, demais. O sentimento que morava nos olhos dele faltava nos dela. Os dela eram castanho vazios, castanho sem vida, castanho sem viço, sem brilho, sem nada. Os dela eram marrons, marrons, sem outra cor ou luz.
E quando a escuridão dos dela chocava-se com a luz dos dele vinha um desconforto que ela não gostava e por isso procurava nos concretos da cidade uma cor que se identificasse com aquela que os olhos emitiam.
Rodoviária cheia, fila imensa, destino distante. As mãos se separaram e a despedida começou.
Ela tentando se desculpar, se explicar, se dizer. Ele tentando convencer, entender, esperar, insistir.
Ela querendo se desfazer daquele papel desleal, desonesto, cansada de ser atriz de uma peça sem platéia, de um papel sem graça, de uma personagem que não existia. Difícil resistir.
Difícil dizer a verdade. Difícil deixar os papéis, o palco, as falas prontas.
E foi quando reuniu coragem pra dar tchau, se soltar dos braços e das declarações de amor. Foi quando pisou no ego, voltou pra si e disse adeus, que virou as costas, plantou os pés no ônibus e, sem olhar pra trás, procurou seu assento.
Não ficou pra ver o último ato daquele espetáculo triste. Não se virou pro olhar final. Não queria saber. Foi em frente e deixou na imagem bagunçada de gente, carros e fumaça, o verde de olhos que davam mais, muito mais, do que ela merecia.
Seguiu adiante dedicando aos pés vacilantes, dela mesma, o olhar castanho e triste que levava consigo o nada. A seca. O nada que ela não podia oferecer. Que ela queria só pra ela. O nada que não dividiria com ninguém
E esperava que, com a chegada da primavera, flores brotassem no coração de pedregulhos, mas, enquanto isso não acontece, vai vivendo no cenário sem vida que quis pra si.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Por mim.

Sou a razão da dor. A dor que feriu pés e mãos e cabeça e sentimentos. Razão dos pregos e espinhos e fel e madeira pesada.
Por meu erro e distância, veio o que era correto e perto.
Sou a razão da humilhação e cuspes e deboches.
A razão da nudez, dos sangramentos, da injustiça.
-Crucifica!
-Mas que crime ele cometeu? - Perguntou Pilatos
-Crucifica! Crucifica!
E depois de três dias renasce a minha esperança e a de todo o mundo.
A vida nova que não é sem sofrimentos ou falhas. Mas que trás paz e a certeza de outra vida; a que realmente importa.

domingo, 14 de setembro de 2008

Gente

Só quando o tempo se torna escasso, o cansaço mais forte, as olheiras mais visíveis, a mente mais gasta, e o coração mais apertado é que nos damos conta de que somos gente. E gente é fraca. Cansável, gastável, apertável. Gente perde tempo com coisas inúteis e deixa as úteis de lado. Gente berra, chora, grita, perde a linha, o bom senso e a noção do ridículo. Gente passa dos limites, se arrepende, volta atrás. Quer adiantar o tempo no minuto em que anseia por alguma conquista, mas sonha em voltá-lo quando percebe que perdeu a maior chance de sua vida. Gente é desequilibrada, não adianta. A busca incansável pelo centro de si mesmo, pelo ponto inabalável das emoções, e pelo lugar onde jamais seremos atingidos, é vã. E cá pra nós, melhor assim. Prudência demais, sensatez ao extremo, força infinita, sentimentos sempre certos, sem o mínimo de confusão indispensável para um friozinho na barriga, tornariam tudo isso aqui muito chato.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Pra esses dias

O que há
Álvaro de Campos
O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...


Uma das poucas poesias das quais me lembro com frequência. Talvez por me identificar, talvez por gostar demais do autor. Ou as duas coisas.
Pra esses dias que parecem durar bem menos. Pra esses dias em que café e dorflex não fazem o menor dos efeitos. Pra esses dias em que tudo o que eu quero é uma boa massagem e colo. Descansar do íssimo, íssimo, íssimo.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Último pesadelo

Um buraco enorme com cara de saudade estragou o coração da moça com presilha de strass no cabelo. Era a presilha bonita, de menina meiga que não era e nem fazia questão de ser. Era a propaganda enganosa de frescura e fragilidade que não tinha. Era um retrato enfeitado de desenhos bonitos que não existiam na realidade.
O buraco que só fazia crescer deformar-lhe o peito, a alma e o sorriso. E quando menos percebeu não era o buraco dentro dela, mas, ela dentro dele e ia cavando, cavando, enterrando as unhas feitas de vermelho hostil na terra dura. Enfiando buraco a dentro os dedos, dentes, lágrimas e todo o corpo pra afundar ainda mais na dor que nunca deixou de ser doída. Na dor enjoada e aguda. Naquilo obsessivo em que a saudade se transformou. Depois do tempo que não sabia determinar, eram os cabelos sujos de terra. Eram os fios escuros mais enegrecidos pela imundície do subsolo e de tanta, tanta lama que lhe caía na cabeça. A presilha caiu junto e desapareceu na bagunça e agora nem boa aparência tinha mais. A saudade roubou-lhe a beleza, a sanidade e chegou a pensar que ficaria ali, naquela profundeza, a vida inteira. E viesse quem viesse, chamasse quem chamasse ela não ia responder, não ia sair e nem deixar ninguém entrar. Tornaria-se dona daquela caverna barrenta.
Percebeu que estava sentindo frio. Muito frio. Lembrou que odeia frio e ama o sol. Notou que ali, na escuridão e na sujeira a luz do sol não ia conseguir entrar, era profundo demais.
Por isso, pela luz e calor da superfície, viu que era caduco o plano e abandonou a missão de se afundar ali. Fez o trabalho inverso.
Tentou subir, e com toda a dificuldade que a gravidade torna ainda mais difícil, escalou, enterrava agora as mãos e pés nas paredes do imenso orifício a fim de chegar lá em cima, lá onde as coisas acontecem. E conseguiu. Porque colocou na subida a mesma determinação que empenhara em descer. Ficou feliz ao chegar e decidiu não mais se deixar abater nem por saudade nem por coisa alguma. Pra esquecer daquele dia em que se sujara a toa, tapou o buraco. Levou horas e horas pra desfazer a besteira que fizera no ímpeto de alimentar a dor. E determinada assim jogou montes de terra abaixo, mas, antes viu brilhar, metros dentro do escuro, uma pedrinha de strass daquelas que enfeitaram o cabelo horas antes. Não precisava mais de enfeites, a alegria que sentia por estar de volta e refeita deixava-lhe bela, apesar da sujeira.

Seis e meia da matina, despertador berra em tom de fanfarra pra me lembrar que mais um dia começa. Sem buracos, lama ou frio.
Só o sol saudando a cidade.
Só a saudade que não importuna, mas também não vai embora.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Fica?

Lá da esquina avistou o prédio verde velho que teima em não cair. Não desanimou por causa da aparência porque já estava acostumado a coisas feias, então continuou a andar, calmamente, até aproveitar o portão aberto e subir degraus abandonados pelos responsáveis pela limpeza. Bateu na porta sem agressividade e quando eu atendi corei de vergonha e tremi de medo diante daquela figura modesta. Olhou-me, sorriu e perguntou se poderia entrar. Eu disse que não, mas que não era por má vontade e sim porque a casa estava uma bagunça e odiaria recebê-lo naquela circunstância. Sorriu novamente, disse que não se importava e não tive outra reação senão a de abrir mais a porta e deixá-lo entrar.
Todos os cantos da casa estavam sujos e mal arrumados e, dando uma volta completa em torno de si mesmo, avaliou o ambiente com a serenidade de quem contempla uma campina em flor. Voltou-se para mim:
-Como consegue viver assim?
-Eu não consigo...é que sempre que tento arrumar uma coisa bagunço outra e me desespero, aí deixo como está. Mas não consigo e não gosto.
Sem perguntar nada ele pegou a vassoura e começou a dar um jeito naquele ambiente inóspito. Varria com gosto, feliz. Organizava com prazer aquilo que eu tornei baderna. Então, mais pra não perder aquela companhia do que pra ajudar na arrumação, peguei um pano, balde, sabão e me coloquei a esfregar o que um dia fora chão limpo. Enquanto trabalhávamos no que eu achei ser meu, ele explicava que sozinha eu nunca iria conseguir nada mesmo e que eu dependia de sua ajuda, mas só seria ajudada se quisesse. Vi no semblante dele um amor fora do comum por essa minha vida desregrada, vi que se importava comigo e apesar disso não me invadia e jamais o faria porque além de me amar, respeitava-me.
Ensinou sobre o amor que devo dedicar aos outros, sobre a delicadeza na qual minhas palavras devem habitar e sobre o perdão que preciso conceder ainda que não me seja requisitado.
O sol começou a se esconder atrás da serra quando guardamos o último prato limpo e ele me disse que já ia. Educado como é, não insistiria pra ficar. Ir agora? Depois da casa arrumada? Vou sujá-la de novo e quem vai ajudar a colocar ordem? Ele mesmo não disse que eu nunca conseguiria limpar tudo sozinha?. Não queria que ele fosse e faria de tudo, esconderia suas sandálias as chaves e a porta se preciso fosse. Felizmente nada disso se fez necessário e eu pedi, só pedi:
-Vai não, Jesus. Fica e me ensina a ser como você.
E a resposta foi um abraço que parou meu mundo, um abraço que queria dizer "Fico".