Seguravam as mãos enquanto o trânsito ia lento. Rush, barulho e caos. Conversavam amenidades que vez ou outra acabavam em um silêncio constrangedor e as mãos continuavam dadas. Ele pedia que ela começasse um assunto qualquer, só pra preencher o vão das mãos tímidas. Ela não conseguia falar, esboçar qualquer reação e não vinha sequer um comentário desses de elevador. Calou-se, só. E silenciosa procurou na paisagem urbana e cinza e fria algo mais leve que o verde dos olhos dele que deixavam escorrer amor, carinho e esperança. Difícil demais fitá-lo, demais. O sentimento que morava nos olhos dele faltava nos dela. Os dela eram castanho vazios, castanho sem vida, castanho sem viço, sem brilho, sem nada. Os dela eram marrons, marrons, sem outra cor ou luz.
E quando a escuridão dos dela chocava-se com a luz dos dele vinha um desconforto que ela não gostava e por isso procurava nos concretos da cidade uma cor que se identificasse com aquela que os olhos emitiam.
Rodoviária cheia, fila imensa, destino distante. As mãos se separaram e a despedida começou.
Ela tentando se desculpar, se explicar, se dizer. Ele tentando convencer, entender, esperar, insistir.
Ela querendo se desfazer daquele papel desleal, desonesto, cansada de ser atriz de uma peça sem platéia, de um papel sem graça, de uma personagem que não existia. Difícil resistir.
Difícil dizer a verdade. Difícil deixar os papéis, o palco, as falas prontas.
E foi quando reuniu coragem pra dar tchau, se soltar dos braços e das declarações de amor. Foi quando pisou no ego, voltou pra si e disse adeus, que virou as costas, plantou os pés no ônibus e, sem olhar pra trás, procurou seu assento.
Não ficou pra ver o último ato daquele espetáculo triste. Não se virou pro olhar final. Não queria saber. Foi em frente e deixou na imagem bagunçada de gente, carros e fumaça, o verde de olhos que davam mais, muito mais, do que ela merecia.
Seguiu adiante dedicando aos pés vacilantes, dela mesma, o olhar castanho e triste que levava consigo o nada. A seca. O nada que ela não podia oferecer. Que ela queria só pra ela. O nada que não dividiria com ninguém
E esperava que, com a chegada da primavera, flores brotassem no coração de pedregulhos, mas, enquanto isso não acontece, vai vivendo no cenário sem vida que quis pra si.