quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Em todas as quatro.

Te quero nessa primavera. Quero que você roube uma flor amarela e coloque nos meus cabelos e diga que sou mais bonita que as flores que você já viu. É claro que eu não vou acreditar e vou rir dos exageros que a gente diz quando está apaixonado.
Quando o verão chegar, te aguardo também. Vai ser o sangue quente que dilata as veias e avermelha as maçãs do rosto junto com o ar morno da estação que dá vontade de se refrescar na cachoeira que já imaginei pra nós.
Depois, no outono, te espero. E aí não serão mais as flores e nem a temperatura alta. E você vai dizer que sou o jardim que enfeita sua vida, que era seca antes de me conhecer. Eu vou rir da pieguice. Porque você sabe, amor é cafona mesmo. E apesar do exagero e cafonice vou achar a coisa mais linda do mundo seu jeitinho romântico de bom moço.
O inverno vem, e te anseio. Anseio porque é a época em que me perco no frio, mas quero me abrigar no teu abraço. E anseio que você venha e arranque meu cachecol, luvas e gorro, pra colocar de novo flores no meu cabelo e me esquentar com sangue quente que não esfria apesar das estações.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Até o fim

Tenho poucas lembranças minhas com meu avô. Cresci longe dele e, quando o via, não era de sentar em seu colo e ouvir aquelas histórias que os avôs contam para impressionar os netos. Nunca me ensinou a fazer papagaio ou construir carrinho de rolimã, como fazia com meus primos.
O que guardo mais vivamente na memória são as vezes que ele estava na varanda com o café doce nas mãos e eu chegava com meu café amargo e a gente ficava ali, vendo a vida passar, na cidade gelada do interior, as meninas brincando de boneca na calçada, os meninos soltando pipa, os senhores andando de carroça e as senhoras dando de comer às galinhas. Sem dizer palavra e sem perguntar nada a gente ficava apreciando a paisagem e a bebida e deixando que atrás de nós o pau quebrasse entre pessoas de uma mesma família mas que não se amam. Normal. Amor não vem atrelado ao DNA e a gente precisa aceitar isso. Eu mesma não amo todo mundo que tem o mesmo sobrenome que o meu e não é porque tem mais meia dúzia de gente com as orelhas parecidas que existe a identificação afetiva. Paciência.
Mas admiro meu avô. Admiro pela serenidade, simplicidade e mais que tudo, pela sinceridade. Meu avô não é dado a hipocrisias e falsidades e não faz questão de fingir que está tudo bem quando na verdade não poderia estar pior. Não compra briga dessa gente que adora olhar pro próprio umbigo e se engole por ganância e egoísmo.
E quando eu entrei naquele quarto branco e gelado do hospital, vi o senhor velhinho, de cabeça bem branca, magrinho magrinho, com tubos na garganta, pontos no pescoço, dificuldades na fala e os olhos tristes, vazios e perdidos. Era a luta contra as consequências de uma vida inteira de álcool e cigarro.
Meu coração apertou e me ocorreu que podia ir embora, para outra vida, uma das únicas pessoas que eu realmente gosto nessa família. Não disse nada a ele, porque se em minha vida toda não tivemos muito o que conversar, não seria agora que assuntos sem fim surgiriam.
Mas ao fim da vista, beijei sua mão e perguntei
O senhor precisa de alguma coisa, vô?
Ele virou os olhinhos tristes, tristes para mim e respondeu
Não, minha filha... está tudo bem. Eu sei que Deus está cuidando de mim. Só sinto falta do meu mini-game.
Eu sorri um sorriso triste e me dei conta de que o câncer não apagou a meninice daqueles olhos e nem a vontade de viver daqueles setenta anos. E eu quero ser menina até o fim da vida e se não for com um mini-game, que seja com meus gibis favoritos.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Pago.

Vai ser assim: a gente marca de se encontrar num lugar qualquer que tenha gente, árvores e um café gostoso, e você chega reclamando do trânsito infernal e do tempo confuso que ontem era calor, hoje é frio e parece que amanhã vai chover. Vai encher o saco porque num tem açúcar na bebida e café com adoçante é purgante, depois se irritar com a lerdeza da graçonete que atendeu clientes que chegaram depois da gente. Então, vai debochar do lugar, que é velho e perguntar se num tinha outro melhor pra escolher não. Eu vou te lembrar que foi você quem escolheu ali, e que está cedo demais para tanto stress. Aí, como de costume, você vai colocar a culpa no seu pavio curto e pedir pra eu não piorar as coisas.
Respiro fundo e reviro os olhos. Continuo com o cafezinho já morno, e com o olhar perdido na madame que passeia com o cachorrinho branco. Esqueço que você está ali, e da sua companhia que já me fora bem mais agradável. Esqueço que tempos antes eu daria tudo pra me encontrar contigo, casualmente assim. Esqueço que as pessoas mudam, que você mudou, que eu mudei. Que mudou a forma como eu te amo, que mudou a forma como eu te quero. Mudou, tudo mudou, como sempre muda, meu caro. E é preciso aceitar essas coisas. A vida tem disso, de mudanças que acontecem sem que a gente faça nada.
Então, farta do seu mau humor, vou sorrir pra garçonete lenta e pedir a conta.
Eu pago. Faço questão de pagar. Pagar a conta sem demonstrar a fragilidade feminina que alguém inventou como pretexto pro machismo existir.
Pago pra ver você se levantar e deixar o queixo cair por minha causa. Pago pra notar sua cara espantada quando se der conta que não, eu não te amo mais. E quando der, se der, se eu puder, se eu quiser, a gente se encontra outra vez, pra eu suportar suas chatices outra vez, pra você aturar minha auto suficiência de novo e continua assim. Velhos conhecidos que não se conhecem mais, e mesmo assim sabem exatamente como o outro funciona.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Leve, leve

Vem cá, aproveita que já me tirou o sono mesmo, e me mostra que a vida é leve, descomplicada, gostosa de viver...aproveita o calor, me leva pra tomar um sorvete, ou pra qualquer lugar onde o calor do tempo se misture ao calor das mãos e termine no calor do beijo bom que tem vontade de ser eterno. Me deixa te mostrar que posso ser simples, leve como a vida que vejo você levar, e que toda a complicação pode se desfazer se você topar andar comigo e me ensinar a ver tudo diferente. E eu deixo de lado os saltos, as maquiagens, os cabelos lisos, pra ser só eu, com meu all star, minha cara limpa e as ondas rebeldes que nascem na minha cabeça, que torcem pra ser aceitas por você. Vou com perfume fresco e sorriso aberto pra te encontrar e dizer que senti uma saudade que não sei explicar, te prender num abraço apertado e dizer pra não fazer isso de novo. Faz não... some sem dar explicações não... Lembra que é importante pra mim, lembra que consigo viver bem demais sem você, mas é que depois que entrou na minha vida, ela tem um sabor todo especial de doce que não enjoa, de doce que não vicia, não faz mal, mas dá vontade, dá lembrança boa, dá desejo de reencontro.
E, no reencontro, pode deixar que chego sim. Pode deixar que num furo não...E quando ele acontecer, e se ele acontecer, pode deixar que vou me comportar.
Ou tentar, pelo menos. Porque é difícil demais ficar inerte à você.

domingo, 5 de outubro de 2008

Carão

Eu me perdi nessa cidade grande, que não acolhe e faz a gente se sentir desamparada. No meio de tantos carros, luzes, noite caindo e sombras nascendo, nasceu também um desespero quando reparei que não estava no endereço certo, não fazia idéia de onde eu estava e a ficha caiu que até o ônibus tinha sido o errado. Gente muito estranha, feia, pobre e esquisita. Muito medo do cenário miserável, das caras carrancudas e dos problemas socias que gritam ainda mais alto na periferia. E eu apertando minha bolsa contra o peito por pura força do hábito, sem lembrar que na carteira não tinha dinheiro e que o celular fora quebrado há duas semanas. Sem me dar conta de que as pessoas dali talvez estivessem amedrontadas com minha estranheza, feiúra, pobreza e esquisitisse. Apenas uma questão de ponto de vista. O meu perfume que fica nas entranhas se misturando com o cheiro de esgoto que já está na vida daquela gente e eu morrendo de medo, apavorada, querendo sair dali, querendo correr, gritar e chorar. Querendo minha mãe e a cidade do interior que faz com que as pessoas se encontrem em minutos e passem horas juntas. Saudade súbita da única avenida principal, da única empresa de ônibus, das favelas escondidas, da miséria disfarçada. Saudade do tempo em que eu não levava mais de meia hora pra encontrar um amigo. Interior tem suas vantagens. E no meio da saudade embolada na aflição surgiu um ponto de ônibus e um exemplar humano daquilo que era estranheza para mim, e com toda certeza eu também era estranheza para ele. Um homem que me olhou de alto a baixo com um semblante que fez minha espinha gelar e perguntar sem pensar onde era o orelhão mais próximo.
-Num tem orelhão por aqui não moça...você não tem celular?
-Não...O senhor tem?
-Tenho sim, pode usar.
-Muito obrigada, muito obrigada mesmo, estou perdida e pode deixar que ligo a cobrar.
-Não precisa, moça, tenho créditos.
E depois da ligação, o homem mal vestido, mal encarado, alvo do meu pré-conceito e pedido de ajuda, fez sinal pro ônibus
-Moça, esse busão vai pro centro, de lá você sabe se virar?
-Sei sim, muito obrigada, moço, muito mesmo!
-De nada...
-E você não vem?
-Não, não... esse não é o meu, só parei ele pra você.
Tapa de luvas, dona Indhiara. Tapa de luvas. Era gentileza, só.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Pisantes

Nunca percebera, até então, que andava olhando para os pés. Rápido, devagar, correndo ou parada, sempre olhava para os pés. Perdia a paisagem, os acontecimentos e até eventuais caronas por não caminhar olhando em frente, pros lados ou para qualquer outra direção que não fosse aquela de sempre. Era comum e confortável baixar os olhos e ver onde ia. Não precisava encarar ninguém, não via coisas feias. Bonitas também não. Não via nada, exceto aqueles que a levavam pra onde queriam. Até que um dia um amigo perguntou "porque está olhando para baixo?". E a pergunta veio acompanhada da resposta mais inusitada e pertinente possível: "tem medo de perder os pés, não é?".
É. Não tinha se dado conta que era puro medo de perder os pés. Talvez não medo de perdê-los, somente. Mas medo de se perder deles. Como faria se um belo dia eles virassem à esquerda enquanto o resto do corpo se voltasse para a direita? A vida sem os pés não faria sentido porque embora a mente estivesse em outra dimensão, o corpo sabia bem pra onde ia e sabia bem onde queria chegar. Embora os devaneios a fizessem sair dessa cidade, dessas pessoas, desses lugares, o pé direito e o pé esquerdo eram sensatos e a levavam onde era certo de estar. Daí o medo inconsciente de se perder dos pés e ficar desnorteada.
Daí o medo de olhar pra frente, pra cima, pros lados e, de repente, se ver sozinha. Sem a direção.
Sabia que, se ouvisse os projetos dos pensamentos insanos, iria parar onde não devia e era por isso que cuidava bem daqueles que a conduziam. Era mais prudente. Só que um dia reparou que olhar em frente também tinha suas vantagens, e se perder do caminho de sempre podia ser legal, empolgante até. Fugir da rotina, sabe?
Agora ela alterna. Olha pros lados, pra frente, pra cima, pra trás. Mas continua olhando para os pés. Se certificar que eles estão ali.
Prudência faz bem.