Durante a semana, ela se veste de trapos para cuidar de algodões muito mais preciosos que vidas humanas. De segunda a sábado, ela esquece vaidades e vontades e se apega à única coisa que a mantém viva: o instinto de sobrevivência. Então, são pai, mãe, tios, primos e todos os irmãos empenhados em colher flocos macios que não combinam com a vida dura e áspera que levam. Melhor assim. Os algodões são bem mais agradáveis que o canavial de onde vieram e que a carvoaria por onde já passaram. As canas fizeram cicatrizes que tempo nenhum apagará, e o carvão sujou tanto esse povo de humilhação que, perto desses males, a plantação de algodão parece de sonhos. Só parece. São vinte e dois hectares de pontinhos brancos que não são neve nem doce. São vinte e dois hectares de terra sofrida, marcada pelos pés de quem não tem eira e nem beira, mas tem o estômago corroído pela fome e a pele despida pela pobreza. Mas ela não se deu conta disso, ainda. Para ela, esquecer as vaidades durante a semana é até melhor, porque o mato e a terra sujam-lhe os cabelos e as roupas. Ela sabe que é diferente das crianças brancas que têm mais de três refeições ao dia. Ela entende, de alguma forma, que sua situação não é das melhores, mas fazer o quê? É só uma criança com sete, oito anos, sem registro, sem planos e sem posses. Sua diversão é correr nas plantações com os irmãos e voltar para casa coberta de algodão. Seu medo é levar bronca da mãe por causa de um dia de trabalho desperdiçado. Seu sonho é estudar, ter roupas novas e mais comida na mesa.
Sua ansiedade é o domingo. Ah, o domingo! O domingo não tem algodão. Só as nuvens do céu, que parecem especialmente brancas nesse dia. O domingo não tem correria, trabalho e pele suja de terra. O domingo tem banho. Tem espelho, perfume, pente e a única roupa decente da gaveta. O domingo tem sapatos. Isso porque o domingo tem Deus. No dia sagrado da semana a menina negra, pobre, esquecida e que nem conhece ao certo o tamanho da tristeza de sua vida, se prepara para encontrar com quem parece não se importar com os desvalidos desse mundo. No dia sagrado, ela se arruma para parecer menos mundana e mais divina. Para aparecer a um Deus e pedir que ele cuide de seus algodões, mas, se possível, faça cair maná do céu.
Texto feito na aula de Produção Jornalística
A foto é de 1936, EUA. A menina trabalhava numa plantação de algodão - Acervo da revista Life http://images.google.com/hosted/life
6 comentários:
lindo...jah tenho um novo nick no msn...com indicação de autoria é claro!
(amiga orgulhosa detected)
nem preciso dizer que ficou maravilhoso né ? sorte.
Indhi, a cada post novo me surpreendo ainda mais contigo.
Esse texto é daqueles que consegue nos emocionar, sem chegar a ser apelativo.
É sempre um prazer passar por esse espaço.
Bjim.
os domingos sao bonitos mesmo.
Indh,
Passei por aqui ao acaso, e não consegui mais sair... te li inteira, me emocionei !
Você é espetacular !
Se escreves um pouquinho para ser lida, como contou noutro post, ou pq acha que é mais bonita escrevendo, não sei... só sei que não deve parar nunca de escrever, pq te ler é uma benção menina !!!!
Amei.
Virei fã.
Seguidora.
Salve, salve !!!!
Parabéns !
Beijo,
Solange Maia
Quando puder visite meu “Eucaliptos” :
http://eucaliptosnajanela.blogspot.com
Sem falar muito:
A-D-O-R-E-I e ponto final.
=)
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